Uma peça cujo enredo se tece em
torno de dois pares de gémeos separados à nascença e da confusão de identidades
que se gera quando dois deles, procurando os respectivos irmãos, chegam à
cidade onde estes vivem, para além disso intitulada A Comédia dos Equívocos (Shakespeare, 1623), é uma fonte de
analogias para discorrer sobre o Contencioso Administrativo quase fácil demais
para ser usada. Quase.
Por ora, quedo-me por um breve
paralelo. O Contencioso Administrativo prevê, no que toca aos meios
processuais, a acção administrativa comum e a especial. Trata-se de uma matéria
que merece muitas críticas ao Prof. Vasco Pereira da Silva: para além de terem
sido mal escolhidos os nomes, foram mal atribuídos. De facto, explica o
Professor: por um lado, a ideia de que aquilo a que se chamou “especial” é
especial assenta na concepção ultrapassada do Contencioso como sendo “de mera
anulação” quanto a actos e regulamentos administrativos e “de plena jurisdição”
quanto ao resto; por outro lado, se é a acção especial que é adoptada
quando são cumulados dois pedidos correspondentes a meios processuais
diferentes, é ela, em bom rigor, a “comum”; por fim, como o binómio
comum/especial é relacional, podendo uma realidade ser comum face a outra, mas
especial face a uma terceira, referências a “sub-acções especiais” dentro da
especial só criam confusão.
Assim, conclui o Professor (O Contencioso…, p. 250): “não apenas a escolha dos nomes “acção geral”
e “especial” é inadequada por razões teóricas, dado que tem subjacente uma
visão restritiva e ultrapassada do Contencioso Administrativo, que não existe
mais, como também, a admitir – por hipótese absurda – que o legislador só
poderia escolher entre essas duas denominações, então parece necessário admitir
que houve (…) um “lapso” na escolha
desses nomes”.
N’A Comédia dos Equívocos não são poucos os episódios de identidades
trocadas. Contudo, o que me pareceu ajustar-se plenamente a esta questão foi a
seguinte frase de uma personagem secundária (na cena II do Acto Terceiro): “Não seja a vossa língua a divulgadora da
vossa própria vergonha. (…) As más acções redobram quando acompanhadas de más
palavras.”*
*Tais
palavras são de Luciana. Adriana é mulher de Antífolo de Éfeso; Luciana, irmã
daquela, repreende (aquele que pensa ser) o seu cunhado por este, para além de
trair a sua mulher, não ser discreto quanto a esse facto. Pede-lhe, pois, que,
se não consegue deixar de agir erradamente, pelo menos não revele, no semblante
e nas palavras, a sua má conduta. Surgem, então, as duas frases que destaquei: “Be not thy tongue thy own shame’s orator” e “Ill deeds are doubled with an evil word”.
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